terça-feira, 12 de agosto de 2008

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?


Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Canção da Saudade

São sombras do meu caminho
Iluminadas por sorrisos inesquecíveis
Que navegam em pétalas de lembranças
No jardim onde cultivo segredos,
Olhares de infância;
Memoriais...
Solto as amarras da vida,
E num segundo frágil
Fértil de sentimento,
Num só momento,
Revivo num renascer
Único e imenso
Num suave caminho...
*
Luciano Martini

Minha Dança


Sempre que uma canção íntima me alcança, a chuva me acorda os sentidos e o vento me confidencia suaves lembranças de um tempo longínquo, eu Te sinto.

Sei que me inspiras melhores sentimentos e mais elevadas emoções do que as que consigo ser. Também sei que me suportas e que me acompanhas o passo inseguro.
Mas sempre volto para um lugar dentro de mim, reflitindo sobre os versos que escrevo, sobre a dança que danço, na esperança de Te encontrar.

Quanto mais eu Te conheço, mais me descubro.
Luciano Martini

sábado, 9 de agosto de 2008

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto , você não deve entregá-lo á ninguém , nem mesmo a um animal. Envolva o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro , sem movimento , sem ar - ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar se indestrutível, impenetrável , irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e pertubações do amor é o inferno.

C S Lewis

segunda-feira, 4 de agosto de 2008


Oh! silêncio das salas de espera
Onde esse pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...
Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...
De onde fugiram todos os retratos...
E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...

Mário Quintana

sábado, 2 de agosto de 2008

Naufrágio




Há em mim uma panteão de crepúsculos, pulsando nesta explosão de cores e sentidos.
Neste cenário que atrai o olhar dos poetas é onde eu encontro refúgio. Nesta ilha do imaginário habito com loucos, profetas e sonhadores. Fecho os olhos e ouço sinfonias, e vez por outra, o sussurrar dos anjos.
Sou caçador de versos.
Cada sabor acrescenta sabedoria, infundindo sentido a mistérios e possibilidades que vivo intensamente.
Uma vida não basta.
Por isso vivo mil vidas, narrando meus dias em poesia. Abandonei a crônica e a descrição histórica, quero viver em versos e melodia. Não decifro enigmas, mas sou por eles seduzidos. Misteriosamente atraído para este mar onde a possibilidade do naufrágio é certa. Mas como poetizou Mário Quintana- " Eu sempre sobrevivo a todos os naufrágios".
Luciano Martini

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


Hoje eu fiz um funeral.

Fiquei vagando por corredores assombreados, sentido o cheiro de flores envelhecidas e ouvindo meus passos ao longe. Das paredes, fotos mortas me observavam.
Desconhecidos ( como podiam imaginar?), hoje, dormem lado a lado, esperando...

Enterramos nossos mortos e choramos a falta que eles nos fazem. Sim, é isso que fazemos.
Jaz sobre nossos ombros este pesado fardo. Fardo dos que ficam.
Mas mesmo entre lágrimas conseguimos reservar um pequeno espaço. Um pequeno espaço para um leve sorriso.

Este frágil sorriso, nos revela, nos desnuda, a existência de uma esperança.

Um dia...

... nos veremos de novo.
Luciano Martini

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Minha Teologia


“Teologia é a tentativa do homem de ajuntar de novo as pétalas de sua flor, que é contínua e cruelmente destruída por um mundo que não ama flores”.


Rubem Alves

terça-feira, 29 de julho de 2008

Encanto


Meu melhor poema ainda não foi escrito.
Permanece encerrado em meu íntimo.
Rimando no compasso do meu coração.
Ele só existe em mim.
É um passarinho colorido preso na gaiola.

Mas às vezes, quando fico em silêncio,

ouço o seu canto.
*
Luciano Martini

domingo, 27 de julho de 2008


o tempo
escreveu em meu semblante
marcado,
uma expressão
misteriosa e reflexiva

agora
esculpe em meu olhar
um mundo novo
feito de jardins e cores

É primavera no meu peito!
*
Luciano Martini

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vitrais


Pudesses tu sentires o que sinto
quando a ausência é escura e fria...
talvez pudesses perceber o que pressinto
nesta noite, estranha agonia.

*

Pudesses tu veres por entre vitrais
teus olhos tocados pela pintura
Saberias o que eu sei, nada mais,
vida escorrendo em rios sem textura.

*

Pudesses tu apostares tua vida neste jogo
partilhando com poucos o segredo
que a vela brilha consumida pelo fogo
sabendo que é coisa séria, por isso é brinquedo.
*
Luciano Martini

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Não quero amor


Não quero amor.
Quero demonstrações de amor,
porque o amor que não se demonstra,
desmonta.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Memória Poética


Percepções do meu olhar
fonte do meu sorriso
jardim secreto
colorido


Inacabado


A distância, os quilómetros entre as possibilidades que não existiram, hipóteses abandonadas.

Os objetos que minhas mãos não tocaram, a conversa que não participei, os poemas que eu não li, os abraços que se afastaram.

A melhor noite, eu perdi.

O perfume que eu não apreciei, oportunidades desperdiçei, quando eu tinha que rir, mas eu silenciei.

Devia ter dito. Gritado. Eu podia correr, mas fiquei parado.

As explicações que ficaram por dizer, as músicas que não ouvi, uma voz que é só ausência.

O pôr-do-sol que eu não vi, o mar que não mergulhei, a onda que eu não surfei, a serenata que nunca foi ouvida.

As pessoas que nunca souberam que eu as amava.

A falta de uns segundos mais, uns milímetros mais de coragem, e talvez, poesia. O espaço de ar que ficou suspenso entre esses dois gestos adiados, mudo, pesado, dolorido...

Hoje amanheceu chovendo...


Nem parece um dia de outono, daqueles quando o sol brilha meio baixo na tarde e o céu é de um azul forte e ao mesmo tempo suave como a brisa e a sensação de frescor que ela traz. Hoje a chuva é insistente, envolve tudo em um manto cinzento, esconde as cores, adormece os sentimentos, esfria as emoções.
Sei que devo ser menos benevolente com minha própria preguiça: vontade de fazer nada, de dizer nada, de pensar nada; dormir um sono sem sonhos.Mas, que fazer num dia em preto-e-branco; dia sem vontade, de cores escondidas, de sentimentos adormecidos, de emoções frias.
Outono estranho; como neblina em manhã de Janeiro.