segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Só eu.


Onde percebes ilusão
eu vejo poesia
entre semi-deuses
eu tropecei na lancheria

Tudo pode ser
sem esperar acontecer
chuvas de verão, castelos de imaginação,
sempre viajei sozinho
em jardins de papelão

Sem tudo estar perdido, então.
Vou chorar um rio
Mas chorar a luz do luar,
Lagrimas de estrelas, emoção

Ser feliz é não saber, correr...correr...
E porque parar?
Deixa a dor não estar
Nunca mais

Seguir é não ter fim
Embalar-se neste crepúsculo laranja
Delicado como um poema
Luminoso como um picolé de limão


Luciano Martini

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Uma Oração


Quando dei por mim,
a luz incandescente daquele ocaso brilhava em meus olhos.
Então eu fiz uma promessa,
jamais permitiria que este mundo me cegasse novamente.
Essas foram as minhas palavras,
e ainda hoje, as ouço soar quando cruzo estas alamedas.
Minhas palavras se transformaram em música,
uma canção que embala meus dias mais sofriveis.
E esta música toca-me tão profundamente em meu íntimo,
que tornou-se uma oração.
Uma oração que me deixa mais forte.


E eu continuo crendo...


Luciano Marini

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Mãos no bolso


Ainda há roupas no varal!
E velhos cabides reverenciam o tempo
festejando a dança das roupas.

O vento enxuga lembranças
de olhos secos em dias chuvosos

Aqueço minhas mãos enquanto
procuro meus bolsos
cheio de flores

Escrevo um verso:
- O inverno não é aqui !


Luciano Martini

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Há pessoas que transformam o sol...


Há pessoas que transformam o sol
numa simples mancha amarela,
mas há aquelas que fazem
de uma simples mancha amarela
o próprio sol.


Pablo Picasso

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Imagens Poéticas


Assim são as imagens poéticas:
elas tem o poder de ir
lá no fundo da alma
onde moram os esquecimentos.

E, quando um desses esquecimentos
acorda, a gente sente um estremeção
no corpo. é isso que faz a poesia.

Ela cata pedaços
perdidos de nós.


Rubem Alves

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Poetas e a História


A poesia acompanhou os agonizantes e estancou as dores, conduziu às vitórias, acompanhou os solitários, foi queimante como o fogo, leve e fresca como a neve, teve mãos, dedos e punhos, teve brotos como a primavera, teve olhos como a cidade de Granada, foi mais veloz do que os projeteis dirigidos, foi mais forte do que as fortalezas: deitou raízes no coração do homem. [...]Muitos governantes têm comunicação públicas com seus povos.
A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem.
Há que ouvir os poetas.
É uma lição da história.



Pablo Neruda

sábado, 1 de agosto de 2009

Que Pena



Preso
dentro do peito
passarinho se afoga...

Mas há vôos tardios
em movimentos de revoada.
Vão-se as aves
eis a vida
restam as penas.

Apenas.


Luciano Martini

quarta-feira, 22 de julho de 2009


Minha primeira lágrima
caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar,
para não saberes que havia caído.



Cecília Meirelles

sexta-feira, 17 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Poetas e profetas, por Ricardo Gondim



Qual a diferença entre poetas e profetas?
Nenhuma. Deus é poeta porque gosta de comunicar-se com versos e metáforas. Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração cru. Para entendê-lo, precisa-se de ouvidos espirituais, sensíveis ao êxtase transcendental. Quando Deus declama o universo baila.Os olhos de Deus procuram homens e mulheres que se disponham a encarnar seus sentimentos. Todo profeta foi chamado e enviado por Deus. Porque seu compromisso é com a vida, só a vida, Javé levanta homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas apaixonados com o sublime. Portanto, toda linguagem poética é profecia. Sua vocação sangra no texto, a expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta de sua pena. O poeta pressente o que deveria ser, mas não é; vê-se compelido a re-encantar os desanimados, a curar os desesperançados, a destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. A matéria prima do profeta é a poesia. Como um artesão de cristais, o profeta maneja as palavras de maneira simples, mas com delicadeza mágica. Ele deseja mostrar que o cotidiano, com suas contradições perversas, poderia seguir outra estrada. O profeta se despeja no texto como óleo perfumado, faz-se lenho do fogo que aquece a história. Desejoso de trazer os extremos numa síntese que promova o bem, não esquece que o único absoluto é o amor, que o único bem é vida e que o único alvo é a valorização do instante. Poetas e profetas rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Eles trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, só obedecem o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o ordinário; irrequietos, perturbam o normal. Poetas e profetas não defendem reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história – só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho, chateiam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário.Poetas e profetas são contraditórios. Poetas e profetas são alados; vivem nas nuvens, mantêm perene parceria com os anjos; adoram no silêncio das montanhas; escutam a bruma dos vales; agasalham-se sob o manto platinado da lua. Os poetas não temem ausências, a solidão não lhes amedronta. Profetas são selvagens como os tigres e os poetas, enigmáticos como as águias.Poetas e profetas nasceram no pé do arco-íris; resgatados do Nilo, crescem como príncipes; sensíveis, choram com o ponteio da harpa; tornam-se parceiros dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o destino deles é a cruz.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Outro mundo


Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim,
todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado,
feito de tijolos e de tempo urbano.
De repente, num dia qualquer,
a rua dá para um outro mundo,
o jardim acaba de nascer,
o muro fatigado se cobre de signos.
Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim:
tanto e tão esmagadoramente reais.
Sua própria realidade compacta nos faz duvidar:
são assim as coisas ou são de outro modo?
Não, isto que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes.
Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim.
E à surpresa segue-se a nostalgia.
Parece que nos recordamos e queríamos voltar para lá,
para esse lugar onde as coisas são sempre assim,
banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer.
Nós também somos de lá.
Um sopro nos golpeia a fronte.
Adivinhamos que somos de outro mundo...


Octávio Paz

terça-feira, 7 de julho de 2009

No Fundo do Olhar


nos olhos a suavidade do mar
em suas noites quentes,
escolhidas a dedo,
pra ser berço…

brisa marinha
(de hálito salgado)
Atravessa cordilheiras…
pra ir brincar de esconde-esconde nos cabelos.
Luciano Martini

sábado, 4 de julho de 2009

Um Sonhador


Entre o impossível e o sonho
subsiste a poesia
essa respiração de dentro
questionando a realidade de fora
no meio de tanto vida amorfa
um lirismo perdido e vivo
uma teimosia, uma resistência, um olhar, um acidente
onde apatia e conformismo é norma
entre tantos entretantos e seres sem tempo
de imaginar um dia melhor


Luciano Martini

terça-feira, 30 de junho de 2009

Eu tenho um plano


Eu tenho um plano...

Vou mandar fazer um terno laranja e comprar sapatos dourados para festejar a alegria de viver, dançando desajeitadamente até que a minha pele transpire luz e a minha boca profira perfumes.
Vou tatuar em meus olhos a figura de um menino com sua pipa, para que jamais falte o júbilo da inocência em meu olhar.
Vou cruzar esquinas e praças a procura dos seresteiros que cantam ao luar e, no contorno dos dias amarram fitas brancas nas sinaleiras.
Vou criar um sinal secreto para que todos os poetas da vida me reconheçam, e ao cruzarem por mim nas avenidas da cidade, possam acenar com lenços de estrelas.
Vou comprar um relógio que não marque as horas, mas distinga os momentos cruciais do dia, para que eu possa valorizá-los devidamente.
Vou me fingir de morto, mas estarei pronto a renascer, quando uma saudade despertar, ao som de um pôr de sol inesquecível.
Vou me preparar, para que no momento certo eu possa recitar o verso encantado que transforma pedra em sorrisos.
Vou fazer de conta que me perdi no parque, para que possa ser encontrado ao pé daquela paineira que planta flores em meus poemas.
Vou me fazer de desentendido, mas a noite arquitetarei projetos para mudar o mundo.

Eu tenho um plano...




Luciano Martini

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma outra estória


Uma outra estória surge em mim
Como o brotar de águas
Ou a queda brusca e mansa
Das cachoeiras mais altas
Uma terna percepção que me toma
Entre vislumbres e domínios
Entre lágrimas e cílios
Entre brisas e varandas
Nas mais densas melodias
Risos e melancolias
Passeiam por entre o pinho
E por mim criam seus ninhos


A vida é outra, mas eu
continuo o mesmo...


Luciano Martini