sábado, 15 de outubro de 2011

Nevoeiro






Por entre pinhais, perdido, mergulhei no nevoeiro embraquecido. Sedento de vida, ouvi o sussurro: era talvez a voz da chuva chorando, um sorriso nublado ou um coração partido. Algo que de tão longe me parecia oculto gravemente, coberto pela névoa, um murmúrio ensurdecido por imensos outonos, pela entreaberta e úmida treva das folhas. Porém ali, vagando por trilhas do bosque, o orvalho caiu sobre meus olhos e secou meu coração. E seu sabor errante subiu como lua que adentra nas nuvens, como se, repentinamente, estivessem me procurando nas ruas por onde andei, na terra perdida da minha infância.



Generosamente a noite se compadeceu de mim e me protegeu com seu cobertor de sonhos.









Luciano Martini

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Grandeza


Tudo bem !!!

Eu sei que ele era somente um riacho.

Ah! Mas que ele tinha um jeitão de mar, isso tinha...




Luciano Martini

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Faxina



Fui fazer uma arrumação no meu guarda-roupa e acabei por encontrar tantas coisas que tinha, a tanto tempo, perdido. Coisas impossíveis...


Achei conchas, cataventos, bancos de praça, barcos, telhados preguiçosos, ruas de chão batido, dois ou três olhares, um trem a passar numa estaçãozinha perdida, um poema no bolso de trás do meu jeans, um cheiro de tarde ensolarada, uma meia laranja, retratos de ursos, um pouco de chuva na janela, uma canção antiga, o cheiro de uma cachoeira (que eu mergulhei quando tinha 16 anos), uma bola velha e um passarinho.











Luciano Martini

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Gestar Sonhos



Na madrugada sussurro de anjos

pensamentos soltos no momento

à meia luz de eternidades

engravidam-se os sonhos





Luciano Martini

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A sombra das coisas


A vida simplesmente pensada
e não vivida,
Despe-se de seu dom
de sua própria essência!
Aprisionado à sombra das coisas, viajamos desajeitadamente,
divididos, dispersos.
Onde estamos, não somos.

Eu nunca sou totalmente.
E é um ficar, sem deter-me,
e um partir, sem levar-me
É difícil ser !


Luciano Martini


Luciano Martini

A fé dos homens


A fé é coisa insurgente
reina em aparições
faz florir em relâmpagos
e compõe árias de ressurreição



Luciano Martini

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Inverno Úmido


A garoa da tarde umedece os meus passos
sobre a luz plúmbea da rua distraída
Meu olhar pende para o infinito
enquanto a desconhecida de rosto triste
recolhe sonhos e roupas de um varal


Luciano Martini

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Estou lendo

O MAIS TRISTE COM RELAÇÃO à vida é não se lembrar de metade dela. Não se lembrar nem de metade da metade dela. Não se lembrar nem mesmo de uma ínfima porcentagem, se quiser saber a verdade. Tenho um amigo chamado Bob que escreve tudo o que lembra. Se lembrar que deixou cair um sorvete de casquinha no colo quando tinha sete anos, ele vai escrever isso. A última vez que conversei com Bob, ele tinha escrito mais de quinhentas páginas de memórias. Ele é o único cara que conheço que se lembra de sua vida. Ele disse que capta lembranças porque, se esquecê-las, é como se não tivessem acontecido, como se ele não tivesse vivido as partes que não lembra.

Pensei nisso quando ele comentou e tentei me lembrar de algo. Lembrei-me de ter ganhado uma insígnia de mérito como escoteiro quando tinha sete anos, mas só consegui me lembrar disso. Eu a ganhei por ajudar um vizinho a cortar uma árvore.

Vou dizer isso para Deus quando ele perguntar o que fiz com minha vida. Vou dizer que cortei uma árvore e ganhei uma insígnia por isso. É muito provável que ele queira ver a insígnia, mas eu a perdi anos atrás e, por isso, quando eu tiver terminado minha história, Deus provavelmente estará sentado ali, olhando para minha cara de quem imagina o que vai falar em seguida. Deus e Bob provavelmente vão conversar durante dias.

Um Milhão de Quilômetros em Mil anos, Donald Miller


Só eu.


Onde percebes ilusão
eu vejo poesia
entre semi-deuses
eu tropecei na lancheria

Tudo pode ser
sem esperar acontecer
chuvas de verão, castelos de imaginação,
sempre viajei sozinho
em jardins de papelão

Sem tudo estar perdido, então.
Vou chorar um rio
Mas chorar a luz do luar,
Lagrimas de estrelas, emoção

Ser feliz é não saber, correr...correr...
E porque parar?
Deixa a dor não estar
Nunca mais

Seguir é não ter fim
Embalar-se neste crepúsculo laranja
Delicado como um poema
Luminoso como um picolé de limão

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entre Auroras e Tropeços

Permitam-me salvar aquele menino que habita os porões da minha alma. Descobrir os mistérios da cidade. Achar o brinquedo que eu perdi na calçada.

Eu quero voar de novo com a minha bicicleta, mesmo que desta vez, o ET não esteja na carona.

Coleciono fracassos, mas, creio na ressurreição da vida. Continuo a ser a esperança dos loucos e desajustados. Duvido das minhas certezas, para poder viver exclusivamente da fé. Pode parecer loucura, mas, eu sempre gostei de montanhas russas.

Repilo os perfeitos, os campeões, os prepotentes. Mas por outro lado, tenho empatia a todos os desajeitados, os estranhos, os iludidos na sua desilusão, àqueles que continuam a insistir em fazer serenatas, mesmo que a janela da varanda nunca tenha se aberto.

Vou ao encontro dos que sentam no fundo da sala, daqueles que não se levam muito a sério, dos que nadam contra a corrente esperando a onda perfeita, mesmo não sabendo surfar direito.

Trago nas dobras da alma a esperança de um desfecho feliz, para uma história tão ensaiada e sonhada, que ainda não foi totalmente contada.



Minha vida...





Luciano Martini

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Eu sou assim



Hoje eu sou reflexo do que tentei ser

resultado daquilo que não consegui

sou mosaico de estórias

menino que se perdeu no parque


sou sempre busca

sou sempre sonho

um poeta que habita em mim

mas, naquele parque

quase sem querer


encontrei um jardim.




Luciano Martini

terça-feira, 21 de junho de 2011

Saudade de quem se foi...


Eu devia ter perguntado como seria a vida depois de ti,

mas, tive medo da resposta.

Pois, lá no fundo eu já sabia...

Eu sabia que o céu nunca mais teria o mesmo azul,

que os pássaros de tão chateados não cantariam como antes,

que o arco-íris perderia uma cor,

e que meu sorriso ficaria marcado.

Sabia que sentiria falta do teu abraço

que a tua ausência estaria sempre presente

e que carregaria comigo a esperança

de um dia te reencontrar.



Luciano Martini

sábado, 18 de junho de 2011

Distante



O distante traduzo

em versos viajantes

livres sonhadores

em sussurros do vento

que o sentimento esvazia



Os meus longes

de água molham

a minha face a procura de:

reflexo...







Luciano Martini