segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sem pressa nenhuma


Em pé nesse cruzamento, me ponho a lembrar por quantos caminhos trilhamos sozinho, mas sem pressa nenhuma descobrimos nosso destino, e nossa alma recusa esta prisão dourada e almeja voar com os outros pássaros.
Em pé nesse cruzamento, eu posso ver alguns estranhos passando por mim carregando uma certa dignidade. Quantas histórias vividas trazem esses olhos cansados, que ora me encorajam, ora me enfraquecem. Tudo já foi feito até chegarmos neste eito, amigo, e hoje eu não tenho pressa alguma.
Em pé nesse cruzamento, eu posso sentir o cheiro de chuva e terra molhada, quando fecho meus olhos, mesmo que não haja nuvens. São minhas lembranças que brincam de roda, e despertam um menino tímido que vem me visitar todos os natais.
Calmamente neste cruzamento, sem desejo de correr, não há nenhuma pressa quando tudo foi dito e feito. Então deixe-me aqui por alguns instantes atrapalhando o trânsito, parado nesta encruzilhada da vida.

Porque hoje;
eu não tenho pressa nenhuma...

Luciano Martini

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Visões


...vossos jovens terão visões;


Existem alguns olhares
que carregam em si um certo vislumbre do sagrado,
e por esta razão,
tornam-se altares.


Luciano Martini

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O caminho desconhecido dos mapas


aquele caminho tem um olhar
que me toca as entranhas.
uma rede embala os que desistem
os que persistem, giram sóis
brilham luas

e o ipê;
insiste em florescer
a despeito das ruas


Luciano Martini

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Intimidade


O ocaso sepulta o brilho no horizonte,
mas no fundo de minha alma,
meus íntimos vivem...



Luciano Martini

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uns dias


uma manhã de nuvens
cheirando verão
paredes retendo
o silêncio do tempo
o relógio chorando
os minutos iguais
a espera escorrendo
estrelas demais

uma tarde chuvosa
beirando o natal
o chão dormitando
na enchente do rio
um sino brincando
de pega ladrão
na boca adoçando
um picolé de limão

uma noite pingando
pra fora do mito
o espelho frustando
a esperança do rito
o lenço enxugando
dormentes de trem
o adeus respingando
promessas ao vento
e o tempo partindo
derivando pra vida.


Luciano Martini

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Fotos Antigas


Observando fotos antigas
notei que em algum ponto de minha vida
meus sorrisos se modificaram

Trato deste tema
fazendo poema
sem pontos finais...

E agora, de fora
das catedrais do tempo
sorrio em metáforas e rimas
tentando encontrar entre ruínas
o que pode ainda
fazer-me sorrir
como naqueles dias




Luciano Martini

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Brevidade


Se minha vida tem que ser breve,
então que seja intensa
Intensa como uma estrela cadente
iluminando o caminho,
atraindo olhares para o céu,
depertando inspiração e desejos
de uma vida melhor.



Luciano Martini

domingo, 15 de novembro de 2009

Mais uma do Rubem


Aprecio a tua presença só com os olhos.

Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira

vez que conhecê-la,


Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira

vez,

E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido

contar.




Rubem Alves

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Coleção


Guardo em mim secreta coleção de fotos: o tempo parado para sairmos deste deserto que escolhemos viver, a carícia entesourada em gestos ternos e abraços de sofá, a fraternidade vagabunda sentada em calçadas da madrugada, o canto preparado em uma orquesta de anjos sem asas e sem noção, a minha tolice e a dúvida que arrasta meus olhos para o lado oposto da minha intenção, aquele poema onde desnudei os segredos da minha humanidade e a saudade que brota como uma flor de brejo, irresponsavelmente bela e perfumada.


Luciano Martini

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Simplicidade


No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia?
Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples.
Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.





Rubem Alves

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Caminhando na chuva


Meus passeios descobrem um mundo novo de possibilidades e sensações.
Sublime! É a noite que bebe o outono com chuviscos.
Andando em direção à luz de cidades inundadas e distantes, o caminho da chuva que o meu olhar traduz em trilhas de saudade, me convida e acaricia.
Vivo mil vidas em minha imaginação : - Enredos, cenários escondidos e figuras fantasmagóricas que me acompanham.
Banhos longos não lavam a alma, mas me lembram que eu ainda estou vivo...
Então, espero, não desespero.
Sigo suave e displicente, como o silêncio que há entre duas rosas que se olham.



Luciano Martini

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Com o Sol nos olhos


Com o Sol nos olhos,
pode-se pisar alegremente a linha do abismo,
não atribuindo receios ao mar de areias movediças que se espreita ao longe.
Pode escurecer, mas não dentro, quando se tem o Sol nos olhos.
Os raios dourados entram, deslizam, dançam, com a doçura do calor.
As sombras estendem-se e ficam suaves, o risco das trevas ainda nem se anuncia.
Com o Sol nos olhos,
é despertada a melodia de um sorrir interior, sem esforço.
Estende-se a mão na distância,

envia-se uma flor em pensamento...



Luciano Martini

sábado, 3 de outubro de 2009

O Reino de Deus


A confusão começa quando achamos que as crianças tem o Reino por serem inocentes!
Ora, o Reino de Deus pertence as criancinhas, não por causa da sua inocência, mas sim, por causa da sua incompetência.




Luciano Martini

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quero saber


Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição:
não nos compreender

Pablo Neruda

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Labirinto

Desperto de um pensamento longínquo com o cheiro de óleo queimado. É aqui por entre esta estrada tortuosa e o sicômoro da calçada que a vida passa - um filme cuja película já gasta ainda me assombra. O sol e a lua alternam-se iluminando a janela; inspiração e poesia são apenas sinais de fumaça e há muito, sou parte da paisagem emoldurada – quem me dera um eclipse, para desafiar certezas e transpor as coisas do seu lugar. Mas embrenhei-me pelo caminho. Um labirinto de trama bem urdida protege a saída e meu fio de novelo desgastou-se, virou poeira que baila entre raios de luz. Como falar do que desconheço? Não consigo entender! - Sequer, a mim. Aliás, neste tabuleiro de xadrez perdi o jogo e a ilusão, restam-me apenas os peões e uma torre. Fatiguei-me ao tentar salvar o que não tinha salvação. Aquela paisagem na janela é estática. O sol e a lua não! Vivem sua beleza, seus papéis, seus mistérios... Quanto a mim, esta fase de transformação é incômoda, é libertadora, é profunda, mas quase sempre triste e solitária.
E os minotauros espreitam, porém seus semblantes não assustam mais.
Luciano Martini